Os meus pesadelos sempre foram povoados de monstros ou assaltantes que me invadiam a casa. Estes desapareciam com um despertar violento, seguido de uma luz acesa e um copo de água… O meu último pesadelo demorou mais tempo a passar, daí que só fale dele agora, quando já se disse quase tudo.
Desta vez, o pesadelo foi depois do sono. O estremecimento dos vidros do meu quarto, provocado por uma forte explosão, fez-me acordar
Entre as 4h40 da madrugada e as 7h da manhã, aproximadamente, juntámo-nos – eu e os quase 20 professores do meu prédio – num dos corredores e em casa de uma colega para irmos conversando e consultando as notícias na internet. Qualquer coisa servia para ajudar a esquecer o ruído do tiroteio que acontecia mais perto do que aquilo que gostaríamos…
Porém, talvez nem estivéssemos perto, como se chegou a dizer… Talvez nenhum elemento da comunidade portuguesa estivesse, de facto, perto do tiroteio e das explosões – nem os que vivem ali ao lado – simplesmente porque, entre os aterradores ruídos, ao surgir a questão “Mas até quando?!”, todos os estrangeiros a viver na Guiné-Bissau têm a liberdade de responder “Apenas até ao dia em que eu quiser”, porque há um outro país que espera, aquele onde está a família. Esta resposta permite um distanciamento que, de algum modo, atenua o medo, conforta…
No entanto, há os guineenses, aqueles que não sabem dizer até quando terão de aguentar este medo, esta insegurança. Nestes dias, todos os guineenses que encontrei me disseram que desta vez é que era, estes é que tinham sido os últimos crimes sangrentos a mancharem a imagem do seu país. Mas nenhum deles negou o medo ou o facto de alguns terem fugido da capital conduzidos pelo fantasma da guerra.
Vividas as explosões, o silêncio inquietante das ruas desertas no dia que se seguiu à ruidosa noite, o medo no olhar das pessoas e o cansaço – sobretudo o cansaço – ,consegui entender, pela primeira vez, porque é que tantos preferem afogar-se no azul imenso da esperança de uma vida melhor a esperarem sempre por um fim de violência, de fome e de miséria que teima em não chegar…
*Queixar-se de fome, queixar-se de sede... Querer sossego, querer PAZ!
Nota: Foto tirada há alguns meses, à saída da escola.
A palavra - que me impressionou - estava assim,no chão, caída, desmaiada junto à minha escola...
Labels: Guiné-Bissau

3 Comments:
At 6:26 AM,
Ana Claudia said…
Na sequência dos últimos acontecimentos dizia eu a uma amiga sobre os guineenses: "já não basta serem pobres, mas viverem com medo?"
Espero q um dia acabe.
At 4:56 AM,
Mário Linhares said…
Obrigado pelo comentário no meu blog. Não sei como o encontraram, mas estou contente por ler o que aqui está escrito. A vossa é uma partilha mais actualizada que a minha...
Permitam-me que faça uma ligação do meu blog para o vosso, pois há muitos alunos em Portugal à procura de informação sobre a Guiné e aqui encontrarão uma excelente ajuda!
...
É impossível não ficar sensibilizado com esta fotografia e o que representa...
Estava assim desmaiada... e nós ficamos a ver de fora, a fazer quase nada...
Obrigado por me terem dado a oportunidade de ler o que escrevem desse lado...
At 7:52 AM,
No bai said…
Obrigada pelo post.
Quem por aí passou, sabe o alcance e significado que têm as tuas palavras.
Quantas vezes olhava para os meus meninos nas aulas, para os colaboradores e me passava pela cabeça que provavelmente estariam ali sem nada no estômado, mas estavam. E com sorrisos sempre.
Os últimos acontecimentos em Bissau fizeram-me chorar... não pelo que aconteceu, mas pelo medo do que poderia acontecer. Tal como tu, sabia que vocês (em quem não deixei de pensar) regressariam a casa, mas os nossos guineenses ficariam. Eles teriam de enfrentar algo que não querem, porque eles querem sossego, querem paz.
E nasceu em mim uma grande tristeza.
Seria terrível estar a acontecer alguma coisa em Bissau, ter aí pessoas que adoro, que me ajudaram a entender tantas coisas, que me fizeram sorrir e não poder fazer nada. Esperar simplesmente que tudo acabasse e tentar uns telefonemas. Foi doloroso, mas tudo não passou de medo que, felizmente, não teve razão de ser.
Beijinhos, Ana, e continua a escrever.
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