- 17 de Fevereiro -
Olhando o estado do ensino na Guiné-Bissau, é possível depreender que se valoriza aquilo que é de difícil acesso. Neste país da África Ocidental, infelizmente, a guerra, a fome, a miséria destruíram, entre muitas outras coisas, o sistema de ensino. Hoje os alunos querem estudar, mas, nas escolas, encontram salas sujas, falta de material e sobretudo professores desmotivados por muitos meses sem salários... Mas disto, eu sei pouco, porque não sou guineense. Apesar de já cá estar há algum tempo, a minha a visão será sempre a de alguém que está um pouco de fora. Assim sendo, deixar-vos-ei, mais à frente, algumas palavras dos meus meninos, os colaboradores das Oficinas em Língua Portuguesa, sobre o ensino no seu país.
Eu só posso dizer que gosto muito de trabalhar aqui com os alunos e com os professores guineenses, a quem tenho dado formação. Tenho aprendido com estes últimos o que é ser professor aqui; tenho transmitido o que aprendi numa tentativa de ajudá-los a trabalhar melhor, com mais apoios, com menos dúvidas... Se o objectivo tem sido cumprido, só os próprios o podem dizer. A mim fica-me a consciência tranquila de quem dá o seu melhor, de quem passou o seu o Dia do Professor a trabalhar por e para aqueles que hoje se homenageiam, os professores guineenses.
Sim, porque 17 de Fevereiro é feriado por ser Dia do Professor na Guiné-Bissau. Eu, como professora portuguesa na Guiné-Bissau, só posso usufruir de parte deste feriado, a parte guineense, isto porque, no meu país, em Portugal, os professores, por vontade de muitos, nomeadamente daqueles que estão no poder, não se homenageiam, enxovalham-se!
O PROFESSOR ESTÁ SEMPRE ERRADO!
Quando...
É jovem, não tem experiência.
É velho, está ultrapassado.
Não tem automóvel, é um coitado.
Tem automóvel, chora de "barriga cheia".
Fala em voz alta, passa a vida a gritar.
Fala em tom normal, ninguém escuta.
Não falta às aulas, é um "chato".
Precisa de faltar, é um "turista"
Conversa com outros professores, está "a cascar" nos alunos.
Não conversa, é um desligado.
Dá muita matéria, não tem pena dos alunos.
Dá pouca matéria, não prepara os alunos.
Brinca com a turma, está convencido de que é engraçado.
Não brinca com a turma, é um chato.
Chama à atenção, é um mal-disposto.
Não chama à atenção, não se sabe impor.
A prova é longa, não dá tempo.
A prova é curta, tira as hipóteses aos alunos.
Escreve muito, não explica.
Explica muito, o caderno não tem nada.
Fala correctamente, ninguém entende.
Fala a "língua" do aluno, não tem vocabulário.
Exige, é rude.
Elogia, é trocista.
O aluno é reprovado, é perseguição.
O aluno é aprovado, "teve sorte".
É, o professor está sempre errado mas,
se conseguiste ler até aqui, agradece-lhe a ele!
Obrigada, Teresa, por teres encontrado e cedido este poema!
PALAVRAS DOS MEUS MENINOS (porque não tenho meninas nas minhas turmas...)
«As escolas da Guiné-Bissau debatem-se com muitos problemas, como as frequentes e prolongadas greves de professores. O normal aqui seria que as aulas começassem em Outubro e terminassem em Junho, mas, este ano, só tiveram início em Janeiro e, devido à época das chuvas, terão de terminar em Junho na mesma.»
«Como vocês sabem, a Guiné-Bissau é um dos países mais pobres do mundo, por isso estamos a deparar-nos com muitas dificuldades. Muitas delas verificam-se no sistema de ensino guineense. Os professores não recebem salários atempadamente, por isso, fazem greve muitas vezes. Também há falta de escolas nas regiões e o Governo ignora as reivindicações das duas centrais sindicais nacionais, o que faz com que haja muitas situações aberrantes criadas por alguns docentes, tais como: desvio de géneros alimentícios e de fundos escolares, sucessivas vendas de notas no final do ano lectivo e fuga de quadros superiores. Estes factores contribuem bastante para a degradação do sistema educativo guineense.
Para agravar ainda mais a situação, há muitos professores com imensas dificuldades linguísticas, razão pela qual não conseguem transmitir “a mensagem” aos alunos. Isso reflecte-se negativamente neles: 90% dos alunos que já concluíram a 11ªclasse, não sabem escrever nem falar correctamente Português. Com a chegada dos professores do PASEG a situação tem melhorado um pouco. Graças a este brilhante e precioso projecto que é o PASEG, aprendemos muitas coisas, por isso esperamos que ele alargue a sua acção a todas as regiões e sectores da Guiné-Bissau para que a Língua Portuguesa seja mais falada no nosso país.»
Labels: Guiné-Bissau

2 Comments:
At 10:51 AM,
Diana said…
Minha amiga, há muito que não vinha a este blog e fiquei agradavelmente surpreendida com o muito que tens escrito e contado e por vezes também sonhado por aqui :) Parabéns pelo excelente trabalho que não tenho dúvidas que estás a fazer aí a cada dia que passa e também no dia do Professor, que ontem comemoraram! Parabéns pelas imagens, os poemas, as fotos (sempre muito manequim, a menina!), os textos dos alunos... Um abraço muito apertado e a transbordar de saudades!
At 1:23 PM,
Ana Sofia said…
Confesso que ao colocar as fotos me lembrei do fim-de-semana no Porto, das férias no Loire, no estranho Blois e dos nossos momentos muito Salsa! É claro que sorri, porque tudo isto me faz recordar muitos momentos maravilhosos que passámos juntas.
Beijinhos!
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