Casa da Patrícia

Thursday, May 28, 2009

Adivinha, adivinha. Adivinha certo.

A literatura traicional oral sempre foi algo que me encantou, por me parecer uma imensa prova de criatividade e sabedoria populares. No entanto, as adivinhas nunca me despertaram particularmente a atenção. Sempre foram, para mim, uma espécie de parente pobre.
Contudo, há umas semanas atrás, durante a preparação de actividades para a Oficina em Língua Portuguesa, uma amiga sugeriu a criação de uma caixinha de adivinhas. Nessa caixinha, que se foi enchendo de adivinhas portuguesas e guineenses por ela recolhidas, houve uma que de que gostei especialmente por falar de uma das mais enternecedoras imagens guineenses/africanas. Aqui fica ela!



«Adivinha, adivinha. Adivinha certo.
Numa ponte, há três pessoas a passar juntas: uma pisa a ponte, vê a água e o tarrafe e passa; a outra não pisa a ponte, vê a água e o tarrafe e também passa. A terceira pessoa não pisa a ponte, não vê nem a água nem o tarrafe, mas também passa.»


Solução: A mulher grávida com um filho às costas.

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Thursday, May 21, 2009

Da Guiné e de Cabo Verde


Por terras da Guiné, costuma dizer-se que a chuva chega no dia 15 de Maio. Este ano ela veio assim, tão discreta quanto pontual. Também se diz que no início da época das chuvas ela cai semanalmente, sempre no mesmo dia e mais ou menos à mesma hora; depois vai-se tornando cada vez mais frequente até que em Agosto chove todos os dias, sempre na hora prometida.

Posso dizer que, para mim, a chuva grande deveria cair sempre à noite. É nessa altura que estou mais predisposta a ouvir os estrondos e a deixar o meu quarto iluminar-se só pela claridade dos intensos relâmpagos, enquanto a rua se enche de água ao ponto de se transformar momentaneamente num caudaloso rio. Ao pensar na chuva, sinto saudades de todas as que vi aqui e fico ansiosa para que elas voltem a cair em toda a sua grandeza.

Mas também me sinto egoísta e sinto que elas só têm o direito de chegar quando os guineenses estiverem todos prontos para as receber. Sei que essa fascinante grandeza da natureza causa destruição entre os mais pobres: há gentes que vêem as suas casas frágeis levadas pelo vento e pela água que, de tão forte, invade tudo… Por isso, quero acreditar que a chuva, este ano, vai ser generosa; quero acreditar que vai dar o seu grande espectáculo de quem corre as terras fertilizando-as sem as destruir. Quero acreditar que será assim, porque a vida para os fidju di tchon já é dura de mais!

Espero que aqui na Guiné-Bissau a chuva tenha um regresso como o descrito pelo herói nacional Amílcar Cabral, no seu poema dedicado a Cabo Verde. (E aproveito para deixar as fotografias das férias da Páscoa em Cabo Verde, que já vêm com grande, grande atraso…)

REGRESSO


Mamãe velha, venha ouvir comigo
O bater da chuva lá no seu portão.
É um bater amigo
Que vibra dentro do meu coração.

A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva,
Que há tanto tempo não batia assim…
Ouvi dizer que a Cidade Velha
- a ilha toda –
Em poucos dias já virou jardim…

Dizem que o campo se cobriu de verde
Da cor mais bela, porque é a cor da esp’rança
Que a terra agora, é mesmo Cabo Verde
- É a tempestade que virou bonança…

Venha comigo, Mamãe Velha, venha,
Recobre a força antiga e chegue-se ao portão.
A chuva amiga já falou mantenha
E bate dentro do meu coração!


Cidade da Praia








A areia preta de Porto Gouveia


Interior da Ilha de Santiago





Os dois mundos do Tarrafal




Ribeira da Barca

E muito mais, para descobrirem quando eu regressar a Portugal :)