Muito do artesanato que se vende em Bissau, infelizmente, vem de fora: do Senegal, do Mali, do Níger. Sendo todo ele bem africano, mostra como, mesmo dentro deste continente, a Guiné-Bissau se tem deixado ultrapassar por se acomodar numa letargia nada produtiva.
Iuri é um dos que contrariam esta tendência. Ele continua a trabalhar para manter vivo o artesanato guineense. A sua família mora no interior da Guiné-Bissau, perto de Saltinho - local bastante apreciado pelos estrangeiros - mas é em Bissau que consegue vender a maior parte das suas peças.
Quando vi este guineense com quem me devo ter já cruzado na zona do artesanato da capital, ele estava acompanhado por cinco mulheres de madeira a tinha acabado de dar alma com as suas mãos. Apaixonei-me por uma dessas mulheres guineenses e decidi trazê-la comigo. Ela acompanha-me, agora, enquanto escrevo. Uma segunda mulher foi acolhida por uma amiga.
Das suas cinco mulheres, Iuri guardou três. Mas todas três virão também para Bissau; estas acompanharão o seu homem até à capital. Graças à alma que Iuri lhes deu, todas três irão conquistar alguém que lhes dará um destino difícil de traçar. Porém, o mais importante é que, como forma de agradecimento a quem lhes deu alma, estas mulheres feitas do que dá o chão da sua terra irão proporcionar o sustento do criador e quem sabe se de outra(s) mulher(es) e crianças de carne e osso que façam parte da vida do artista.
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