Casa da Patrícia

Thursday, January 29, 2009

Um guineense e as suas cinco mulheres


O meu olhar desatento cruzou-se com o de Iuri, pela primeira vez, junto ao rio de Saltinho. Sob as árvores e rodeado de um silêncio perturbado apenas pelo doce ruído da água que foge das rochas com violência, Iuri conquistou-me não pelo olhar mas pelas mãos. Foi ao vê-lo transformar pedaços de madeira em patuscos hipopótamos que me apercebi de que estava perante um artista guineense.

Muito do artesanato que se vende em Bissau, infelizmente, vem de fora: do Senegal, do Mali, do Níger. Sendo todo ele bem africano, mostra como, mesmo dentro deste continente, a Guiné-Bissau se tem deixado ultrapassar por se acomodar numa letargia nada produtiva.


Iuri é um dos que contrariam esta tendência. Ele continua a trabalhar para manter vivo o artesanato guineense. A sua família mora no interior da Guiné-Bissau, perto de Saltinho
- local bastante apreciado pelos estrangeiros - mas é em Bissau que consegue vender a maior parte das suas peças.

Quando vi este guineense com quem me devo ter já cruzado na zona do artesanato da capital, ele estava acompanhado por cinco mulheres de madeira a tinha acabado de dar alma com as suas mãos. Apaixonei-me por uma dessas mulheres guineenses e decidi trazê-la comigo. Ela acompanha-me, agora, enquanto escrevo. Uma segunda mulher foi acolhida por uma amiga.

Das suas cinco mulheres, Iuri guardou três. Mas todas três virão também para Bissau; estas acompanharão o seu homem até à capital. Graças à alma que Iuri
lhes deu, todas três irão conquistar alguém que lhes dará um destino difícil de traçar. Porém, o mais importante é que, como forma de agradecimento a quem lhes deu alma, estas mulheres feitas do que dá o chão da sua terra irão proporcionar o sustento do criador e quem sabe se de outra(s) mulher(es) e crianças de carne e osso que façam parte da vida do artista.


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Aula de Judo ou vómito colectivo?



Às 8h da manhã, à 6ªfeira, têm início as minhas aulas de Língua Portuguesa para colaboradores das Oficinas. Na semana passada, pouco tempo após o início da aula, ouvi uns ruídos muito estranhos numa sala de aula próxima. Era qualquer coisa como "Rrrrraaa", "Rrrrraaa"... Parecia-me um grito de ataque numa aula de judo ou, mais facilmente, uma sessão de vómito colectivo, ideia que pela manhã perturbou o meu estômago ainda um pouco frágil...

Este som repetiu-se e repetiu-se, mas só eu parecia dar por ele. Cada vez mais intrigada, perguntei aos meus alunos se não estavam a ouvir nada de estranho. Inicialmente surpreendidos pela pergunta, acabaram por me explicar que se tratava de uma aula de Francês em que os alunos estariam a aprender uma qualquer frase.

Dada a óbvia explicação, os meus alunos voltaram ao seu trabalho com toda a naturalidade e eu fiquei a questionar-me acerca do número de metodologias que ainda tenho para aprender aqui na Guiné-Bissau. ;)

E eu a pensar que era professora de Francês... O facto é que não consegui descortinar a interessante matéria do vómito colectivo!

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Wednesday, January 07, 2009


A Uma Rapariga

Somos assim aos dezassete.
Sabemos lá que a vida é ruim!
A tudo amamos, tudo cremos.
Aos dezassete eu fui assim.

Depois […] os livros dizem,
Dizem os velhos, dizem todos:
«A vida é triste. A vida leva,
a um e um, todos os sonhos.»

Deixá-los lá falar os velhos,
Deixá-los lá… A vida é ruim?
Aos vinte e seis, eu amo, eu creio.
Aos vinte e seis eu sou assim.

Sebastião da Gama, Pelo Sonho é que Vamos


Ao aterrar na Guiné-Bissau de forma um pouco atribulada e constatando que nem o carrinho nem o tapete de transporte das bagagens funcionavam, lembrei-me deste poema. De facto, chegar aqui foi chegar ao meu segundo lar, sítio de aconchego emocional…Para esse espaço “só nosso” desejamos sempre o melhor e, por ele, posso dizer que ainda «de sonho me sustento» e que, «aos vinte seis, eu amo e creio», entre muitas coisas, num futuro melhor para este país que também já é um bocadinho meu.

FELIZ 2009!

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